EXPOSIÇÃO
CELEBRA OS 105 ANOS DO BANGU, UM PIONEIRO
DO FUTEBOL BRASILEIRO
Antes
de Charles Miller, bairro teve primeiras
peladas disputadas entre imigrantes operários
da Fábrica de Tecidos Bangu, verdadeiro
berço do nosso futebol
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Foto: Raphael Zarko |
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Exposição
comemora os 105 anos do Bangu, clube
tradicional no Rio de Janeiro |
Há
exatos 105 anos, no dia 17 de abril de 1904,
nascia o Bangu Atlético Clube, um
dos clubes mais tradicionais do Rio de Janeiro.
O time da zona oeste carioca não
é orgulho do bairro ‘somente’
pelos títulos de bicampeão
carioca (em 1933 e 1966) e vice-campeão
brasileiro de 1985. Foi ao lado da Fábrica
de Tecidos Bangu, na rua Ferrer - antigo
campo do clube -, que o futebol e a democracia
no esporte deram seus primeiros passos.
Usava as listras verticais branca e vermelha
do alvirrubro carioca - e não a cruz
de malta no peito - o primeiro negro a jogar
futebol contra os brancos e associados da
época. Francisco Carregal, que mais
tarde seria tesoureiro do clube, fazia parte
do time que em 15 de maio de 1905 venceu
o Fluminense, por 5 a 3. Essas e outras
muitas curiosidades, recheadas de documentos
históricos, estão na exposição
Você sabia? O futebol no Brasil nasceu
em Bangu!, realizada no Shopping Bangu até
o dia 11 de maio.
Confira a galeria
de fotos sobre a exposição
que comemora os 105 anos do Bangu.
Famoso também pelo jogo do bicho
do falecido Castor de Andrade, o bairro
da zona Oeste já fazia história
há muito tempo. Em abril de 1894,
um escocês chamado Thomas Donohoe
apresentou a primeira bola aos outros estrangeiros
operários da fábrica de tecidos,
onde hoje funciona o shopping da exposição.
Ali nascia o futebol brasileiro –
e não pelas mãos do inglês
Charles Miller, a quem também se
atribui a 'paternidade do futebol brasileiro’.
Na verdade, o inglês teve esse privilégio
um ano após o técnico têxtil
escocês trazer sua pelota de couro,
bomba de encher e algumas chuteiras camufladas
entre suas máquinas de trabalho.
Os mais antigos moradores de Bangu não
escondem a saudade do bairro industrial,
cheio de casas construídas com tijolo
inglês e telhas francesas que ainda
ficam na memória e nas fotografias
preservadas da época. Se hoje o Bangu
atua em Moça Bonita, antes era no
campo da rua Ferrer. No local hoje há
um mercado e muito concreto da chamada “especulação
imobiliária”.
- Infelizmente - lamenta Benevenuto Rovere
Neto, 63 anos de vida e de Bangu –
Está no sangue, vimos isso tudo nascer
– diz ele, que é neto de italianos
e tem uma ligação mais que
afetiva com o bairro, pois o pai trabalhou
45 anos na fábrica de tecidos.
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Foto: Divulgação |
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O antigo campo da
rua Ferrer.
Ao lado, a Fábrica de Tecidos
Bangu, a origem do futebol brasileiro |
Benevenuto
é presidente do Grêmio Literário
José Mauro de Vasconcelos (nome em
homenagem ao autor de "O meu pé
de laranja lima"), que já tem
15 anos e é responsável pela
terceira exposição de resgate
e preservação da história
do antigo bairro carioca. Com a ajuda de
vizinhos, que fornecem fografias e histórias
antigas do bairro, ele guarda os fatos e
acontecimentos para as gerações
mais novas de Bangu terem conhecimento.
Outra torcedora ilustre do Alvirrubro, dona
Marilda Pedro Corrêa, compareceu vestida
a caráter – toda de vermelho
e com as inicias do nome bordadas acima
do peito - para conferir as fotos e vídeos
que tem mais tempo até do que seus
82 anos de moradora ddo bairro. Irmã
do ex-presidente do clube na década
de 80, seu Antenor Vicente Corrêa,
de quem Castor de Andrade foi diretor de
futebol, era da casa dela que saíam
os ônibus com torcedores banguenses,
o Bansilo, 'porque só tinha velho'.
- Minha avó assistia a todos os jogos
do Bangu na Ferrer (rua ao lado do shopping,
onde o Bangu mandou seus jogos até
inauguração de Moça
Bonita, em 1947). Uma vez vieram avisá-la
que a casa dela estava pegando fogo. Ela
disse: ‘Sinto muito, mas o Bangu acabou
de empatar com o Fluminense’ –
conta, sorrindo, Marilda.
Um dos historiadores responsáveis
pela pesquisa do clube é o jovem
Carlos Molinari, de 29 anos. Ele tinha apenas
cinco quando o vermelho e branco carioca
foi vice-campeão brasileiro em 1985,
mas é um apaixonado pelo time desde
criança, quando nadava nas piscinas
do parque aquático de Moça
Bonita. Ele que pesquisou a história
de Francisco Carregal, o primeiro jogador
negro escalado em um time brasileiro. Para
ele, a diferença para o Vasco, que
é considerado o pioneiro com o time
campeão do Rio em 1923, que tinha
negros, pobres e operários, foi justamente
essa:
- A diferença é que eles foram
campeões. O Vasco tinha três
jogadores negros no time que antes eram
do Bangu: Cláudio, Leitão
e Claudionor. O Bangu também sofreu
com o preconceito, tanto é que em
1907 ele fica fora da Liga, retornando apenas
em 1909 – diz o historiador.
Lacerda, Jorge Amado, Castor e a
banda ‘Furiosa’ na exposição
que lembra um estádio de futebol
O cenário poderia ser Moça
Bonita: gramado, arquibancada, bolas, chuteiras,
camisas do Bangu e a banda ‘Furiosa’,
sempre tocando nos jogos do time. O cenário
foi montado para a exposição,
que exibe depoimentos de jogadores de hoje
(Marcão e Douglas Silva) e do passado,
como dos campeões de 1966, Ubirajara,
Fidélis, Enio, entre outros. As 160
fotos conservadas e recuperadas reúnem
desde o ex-governador Carlos Lacerda, ao
escritor Jorge Amado, torcedor comunista
do time dos proletários, até,
claro, a onipresença de Castor de
Andrade, em muitas poses oficiais com grandes
times do Bangu, que conquistou seu último
título em 1987, quando foi campeão
da Taça Rio.
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Foto: Raphael Zarko |
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Irmã de um
ex-presidente do clube, dona Marilda,
82 anos, assiste aos depoimentos de
ex-jogadores |
Castor de Andrade: o dono do Bangu
De
terno, sapatos e gravata, patrono do clube
batia pênaltis após os treinos
e era considerado um ‘pai’ para
os jogadores banguenses
Filho
de Zizinho, Euzébio de Andrade, ex-presidente
do Bangu na década de 1960, Castor
de Andrade fez história no bairro
e no time de Bangu. As referências
soam quase como reverências com os
que conviveram com o bicheiro: ‘era
o pai da rapaziada’, ‘quem andava
na linha com ele se dava bem’, o ‘dono
do Bangu’. O goleiro campeão
carioca de 1966, Ubirajara, é um
dos que se recordam com carinho do patrono
banguense. Feliz com a recepção
que teve na exposição, ele
recorda a ótima relação
que tinha com Castor:
- Eu era o capitão do time, então
resolvia com ele os contratos dos outros
jogadores. Depois de feita a oferta, eu
pedia para ele aumentar um pouquinho mais.
E ele dava.
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Foto: Divulgação |
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O sorridente Castor
de Andrade, no centro à esquerda,
em foto de 1981.
Patrono e dono do Bangu |
A
mão aberta do bicheiro servia também
para uma brincadeira lucrativa para o goleiro:
- Toda sexta quando terminava o apronto
(treino coletivo) para o jogo, nós
fazíamos uma melhor de três
de pênaltis. Ele lá, de terno,
gravata e sapato, e eu no gol. A primeira
eu não precisava nem pular para pegar.
A segunda eu deixava entrar e ele chiava:
‘Você deixou’. Eu dizia
que não, que ele havia me enganado,
mas na terceira pegava de novo e recebia
uma gratificação, um bom trocado
– diz Ubirajara, que chegou ao Bangu
na década de 1950. Na exposição
ele reencontrou amigos - jogadores e torcedores
- que não via há 40 anos.
Ubirajara foi pivô em um dos episódios
de maior batalha campal do futebol brasileiro.
Em 1966, pouco antes do fim do jogo e do
seu Bangu se sagrar campeão carioca
vencendo o Flamengo por 3 a 0 no Maracanã,
ele teve que dar uma gravata em Almir Pernambuquinho,
que já tinha brigado com meio time
banguense. A partida foi interrompida depois
de nove expulsões. Cinco no Rubro-Negro
e quatro no time de Moça Bonita.
Outro campeão carioca de 1966 foi
o lateral-direito Fidélis. Ele conquistou
títulos pelo Vasco e foi à
Copa do Mundo na Inglaterra, quando barrou
seu ídolo na posição,
o craque Djalma Santos. Castor de Andrade
foi padrinho de casamento de Fidélis.
O patrono do Bangu cuidava da carreira do
lateral, assim como dava casas e premiações
a ele:
- Como eu não tinha muito jeito com
dinheiro, o Castor vinha e me dava tudo.
Ele pedia para que eu escolhesse uma casa
e ia lá e pagava à vista.
Era como um empresário na vida de
um jogador, mas sem tirar da gente. Ele
dava bicho até em treino - lembra
Fidélis, que voltou a ser campeão
carioca em 1970, além do primeiro
Campeonato Brasileiro de um time do Rio
em 1974, pelo Vasco, o outro clube de coração
dele - Não é como hoje, nós
jogávamos com o coração.
Na década de 60 e 80, Castor de Andrade
foi o manda-chuva no clube. Mesmo sem nunca
ter sido presidente, ele sempre ocupou cargos
de chefia no departamento de futebol. A
história dele com o Bangu foi interrompida
algumas vezes por conta de problemas com
a polícia, que perseguia as atividades
do contraventor do jogo do bicho. Preso
junto com outros bicheiros em 1993, quando
seu time fazia bom papel no Campeonato Carioca,
o ‘dono’ do clube morreu em
11 de abril de 1997. Sem as regalias e o
poder do patrono, o Bangu passou anos na
Segunda Divisão do Rio, só
retornando para um honroso sexto lugar no
Estadual de 2009.
Repórter:
Raphael Zarko
Fonte: Globoesporte.com, publicada em 17/04/2009.