Rio de Janeiro, terça-feira, 16 de setembro de 2014 - 16h25min
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EXPOSIÇÃO CELEBRA OS 105 ANOS DO BANGU, UM PIONEIRO DO FUTEBOL BRASILEIRO

Antes de Charles Miller, bairro teve primeiras peladas disputadas entre imigrantes operários da Fábrica de Tecidos Bangu, verdadeiro berço do nosso futebol

Foto: Raphael Zarko
 
Exposição comemora os 105 anos do Bangu, clube tradicional no Rio de Janeiro

Há exatos 105 anos, no dia 17 de abril de 1904, nascia o Bangu Atlético Clube, um dos clubes mais tradicionais do Rio de Janeiro. O time da zona oeste carioca não é orgulho do bairro ‘somente’ pelos títulos de bicampeão carioca (em 1933 e 1966) e vice-campeão brasileiro de 1985. Foi ao lado da Fábrica de Tecidos Bangu, na rua Ferrer - antigo campo do clube -, que o futebol e a democracia no esporte deram seus primeiros passos. Usava as listras verticais branca e vermelha do alvirrubro carioca - e não a cruz de malta no peito - o primeiro negro a jogar futebol contra os brancos e associados da época. Francisco Carregal, que mais tarde seria tesoureiro do clube, fazia parte do time que em 15 de maio de 1905 venceu o Fluminense, por 5 a 3. Essas e outras muitas curiosidades, recheadas de documentos históricos, estão na exposição Você sabia? O futebol no Brasil nasceu em Bangu!, realizada no Shopping Bangu até o dia 11 de maio.

Confira a galeria de fotos sobre a exposição que comemora os 105 anos do Bangu.

Famoso também pelo jogo do bicho do falecido Castor de Andrade, o bairro da zona Oeste já fazia história há muito tempo. Em abril de 1894, um escocês chamado Thomas Donohoe apresentou a primeira bola aos outros estrangeiros operários da fábrica de tecidos, onde hoje funciona o shopping da exposição. Ali nascia o futebol brasileiro – e não pelas mãos do inglês Charles Miller, a quem também se atribui a 'paternidade do futebol brasileiro’. Na verdade, o inglês teve esse privilégio um ano após o técnico têxtil escocês trazer sua pelota de couro, bomba de encher e algumas chuteiras camufladas entre suas máquinas de trabalho.

Os mais antigos moradores de Bangu não escondem a saudade do bairro industrial, cheio de casas construídas com tijolo inglês e telhas francesas que ainda ficam na memória e nas fotografias preservadas da época. Se hoje o Bangu atua em Moça Bonita, antes era no campo da rua Ferrer. No local hoje há um mercado e muito concreto da chamada “especulação imobiliária”.

- Infelizmente - lamenta Benevenuto Rovere Neto, 63 anos de vida e de Bangu – Está no sangue, vimos isso tudo nascer – diz ele, que é neto de italianos e tem uma ligação mais que afetiva com o bairro, pois o pai trabalhou 45 anos na fábrica de tecidos.

Foto: Divulgação
 
O antigo campo da rua Ferrer.
Ao lado, a Fábrica de Tecidos Bangu, a origem do futebol brasileiro

Benevenuto é presidente do Grêmio Literário José Mauro de Vasconcelos (nome em homenagem ao autor de "O meu pé de laranja lima"), que já tem 15 anos e é responsável pela terceira exposição de resgate e preservação da história do antigo bairro carioca. Com a ajuda de vizinhos, que fornecem fografias e histórias antigas do bairro, ele guarda os fatos e acontecimentos para as gerações mais novas de Bangu terem conhecimento.

Outra torcedora ilustre do Alvirrubro, dona Marilda Pedro Corrêa, compareceu vestida a caráter – toda de vermelho e com as inicias do nome bordadas acima do peito - para conferir as fotos e vídeos que tem mais tempo até do que seus 82 anos de moradora ddo bairro. Irmã do ex-presidente do clube na década de 80, seu Antenor Vicente Corrêa, de quem Castor de Andrade foi diretor de futebol, era da casa dela que saíam os ônibus com torcedores banguenses, o Bansilo, 'porque só tinha velho'.

- Minha avó assistia a todos os jogos do Bangu na Ferrer (rua ao lado do shopping, onde o Bangu mandou seus jogos até inauguração de Moça Bonita, em 1947). Uma vez vieram avisá-la que a casa dela estava pegando fogo. Ela disse: ‘Sinto muito, mas o Bangu acabou de empatar com o Fluminense’ – conta, sorrindo, Marilda.

Um dos historiadores responsáveis pela pesquisa do clube é o jovem Carlos Molinari, de 29 anos. Ele tinha apenas cinco quando o vermelho e branco carioca foi vice-campeão brasileiro em 1985, mas é um apaixonado pelo time desde criança, quando nadava nas piscinas do parque aquático de Moça Bonita. Ele que pesquisou a história de Francisco Carregal, o primeiro jogador negro escalado em um time brasileiro. Para ele, a diferença para o Vasco, que é considerado o pioneiro com o time campeão do Rio em 1923, que tinha negros, pobres e operários, foi justamente essa:

- A diferença é que eles foram campeões. O Vasco tinha três jogadores negros no time que antes eram do Bangu: Cláudio, Leitão e Claudionor. O Bangu também sofreu com o preconceito, tanto é que em 1907 ele fica fora da Liga, retornando apenas em 1909 – diz o historiador.


Lacerda, Jorge Amado, Castor e a banda ‘Furiosa’ na exposição que lembra um estádio de futebol

O cenário poderia ser Moça Bonita: gramado, arquibancada, bolas, chuteiras, camisas do Bangu e a banda ‘Furiosa’, sempre tocando nos jogos do time. O cenário foi montado para a exposição, que exibe depoimentos de jogadores de hoje (Marcão e Douglas Silva) e do passado, como dos campeões de 1966, Ubirajara, Fidélis, Enio, entre outros. As 160 fotos conservadas e recuperadas reúnem desde o ex-governador Carlos Lacerda, ao escritor Jorge Amado, torcedor comunista do time dos proletários, até, claro, a onipresença de Castor de Andrade, em muitas poses oficiais com grandes times do Bangu, que conquistou seu último título em 1987, quando foi campeão da Taça Rio.

Foto: Raphael Zarko
 
Irmã de um ex-presidente do clube, dona Marilda, 82 anos, assiste aos depoimentos de ex-jogadores


Castor de Andrade: o dono do Bangu

De terno, sapatos e gravata, patrono do clube batia pênaltis após os treinos e era considerado um ‘pai’ para os jogadores banguenses

Filho de Zizinho, Euzébio de Andrade, ex-presidente do Bangu na década de 1960, Castor de Andrade fez história no bairro e no time de Bangu. As referências soam quase como reverências com os que conviveram com o bicheiro: ‘era o pai da rapaziada’, ‘quem andava na linha com ele se dava bem’, o ‘dono do Bangu’. O goleiro campeão carioca de 1966, Ubirajara, é um dos que se recordam com carinho do patrono banguense. Feliz com a recepção que teve na exposição, ele recorda a ótima relação que tinha com Castor:

- Eu era o capitão do time, então resolvia com ele os contratos dos outros jogadores. Depois de feita a oferta, eu pedia para ele aumentar um pouquinho mais. E ele dava.

Foto: Divulgação
 
O sorridente Castor de Andrade, no centro à esquerda, em foto de 1981.
Patrono e dono do Bangu

A mão aberta do bicheiro servia também para uma brincadeira lucrativa para o goleiro:

- Toda sexta quando terminava o apronto (treino coletivo) para o jogo, nós fazíamos uma melhor de três de pênaltis. Ele lá, de terno, gravata e sapato, e eu no gol. A primeira eu não precisava nem pular para pegar. A segunda eu deixava entrar e ele chiava: ‘Você deixou’. Eu dizia que não, que ele havia me enganado, mas na terceira pegava de novo e recebia uma gratificação, um bom trocado – diz Ubirajara, que chegou ao Bangu na década de 1950. Na exposição ele reencontrou amigos - jogadores e torcedores - que não via há 40 anos.

Ubirajara foi pivô em um dos episódios de maior batalha campal do futebol brasileiro. Em 1966, pouco antes do fim do jogo e do seu Bangu se sagrar campeão carioca vencendo o Flamengo por 3 a 0 no Maracanã, ele teve que dar uma gravata em Almir Pernambuquinho, que já tinha brigado com meio time banguense. A partida foi interrompida depois de nove expulsões. Cinco no Rubro-Negro e quatro no time de Moça Bonita.

Outro campeão carioca de 1966 foi o lateral-direito Fidélis. Ele conquistou títulos pelo Vasco e foi à Copa do Mundo na Inglaterra, quando barrou seu ídolo na posição, o craque Djalma Santos. Castor de Andrade foi padrinho de casamento de Fidélis. O patrono do Bangu cuidava da carreira do lateral, assim como dava casas e premiações a ele:

- Como eu não tinha muito jeito com dinheiro, o Castor vinha e me dava tudo. Ele pedia para que eu escolhesse uma casa e ia lá e pagava à vista. Era como um empresário na vida de um jogador, mas sem tirar da gente. Ele dava bicho até em treino - lembra Fidélis, que voltou a ser campeão carioca em 1970, além do primeiro Campeonato Brasileiro de um time do Rio em 1974, pelo Vasco, o outro clube de coração dele - Não é como hoje, nós jogávamos com o coração.

Na década de 60 e 80, Castor de Andrade foi o manda-chuva no clube. Mesmo sem nunca ter sido presidente, ele sempre ocupou cargos de chefia no departamento de futebol. A história dele com o Bangu foi interrompida algumas vezes por conta de problemas com a polícia, que perseguia as atividades do contraventor do jogo do bicho. Preso junto com outros bicheiros em 1993, quando seu time fazia bom papel no Campeonato Carioca, o ‘dono’ do clube morreu em 11 de abril de 1997. Sem as regalias e o poder do patrono, o Bangu passou anos na Segunda Divisão do Rio, só retornando para um honroso sexto lugar no Estadual de 2009.


Repórter: Raphael Zarko
Fonte: Globoesporte.com, publicada em 17/04/2009.

     
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