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O PIONEIRO DE BANGU

Para os alvirrubros, seu Danau foi quem trouxe o futebol para o Brasil

Há gatos por toda parte no grande galpão que serve como ateliê para o escultor, cenógrafo e empresário Clécio Régis, no bairro de Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. No canto do seu escritório, um quadro romantiza a fábrica de tecidos que, no final do século XIX, transformou aquele areal numa região quase independente do resto da cidade.

No fundo do galpão, chama a atenção uma estátua de gesso inacabada de um atleta com mais de 4 metros de altura e trajando um uniforme de antigamente. A cabeça, em que se destaca uma vistosa bigodeira, ainda precisa ser pregada ao resto do corpo. A estátua representa Thomas Donohoe, um escocês nascido em 1863 que desembarcou no Brasil aos 31 anos para trabalhar na fábrica de tecidos que estava então sendo construída em Bangu.

A homenagem foi idealizada por Benevenuto Rovere Neto, presidente do Grêmio Literário José Mauro de Vasconcelos – que, apesar do nome, é uma espécie de museu dedicado a Bangu. Seu Beto, como é conhecido por ali, teve o estalo ao assistir à Corrida de São Silvestre no ano passado. “A ideia veio quando o jornalista disse que os atletas estavam passando em frente à praça Charles Miller, pioneiro do futebol no Brasil”, disse ele. “As pessoas não sabem que o pioneiro é o seu Danau”, exaltou-se. Era imperativo corrigir o equívoco histórico.

Seu Danau é como muitos banguenses se referem a Thomas Donohoe, que eles consideram o verdadeiro introdutor do futebol no Brasil. O escocês desembarcou no Rio em 21 de maio de 1894 e, em setembro daquele ano, já teria botado a bola para rolar – sete meses antes, portanto, daquela que é considerada a primeira partida oficial do futebol brasileiro, promovida em abril do ano seguinte por Charles Miller, em São Paulo.

Essa é a versão da história defendida no livro Nós É que Somos Banguenses, do jornalista Carlos Molinari. A vida de Thomas Donohoe e a partida organizada por ele ocupam todo o primeiro capítulo dessa obra que retrata, ano a ano, a trajetória do Bangu Atlético Clube, time do qual o autor é torcedor fanático. De acordo com o texto, a bola usada na partida inaugural foi trazida da Europa pela mulher do escocês. Molinari conta o jogo com riqueza de detalhes:

No domingo pela manhã, já era possível ver o sr. Donohoe arrumando uma área livre (...), e fincando quatro estacas, duas de cada lado da várzea, formando assim as traves. Quem passasse pelo local naquela manhã poderia imaginar que o escocês estivesse tentando construir alguma coisa. À tarde, porém, devem ter pensado que todos os técnicos britânicos enlouqueceram. Donohoe chamou de casa em casa todos os seus companheiros dos velhos tempos e um grupo composto de aproximadamente dez homens apareceu nas proximidades do terreno para estrear a bola nova e matar a saudade do tão salutar jogo que eles haviam deixado para trás na Inglaterra.

O livro não menciona as fontes em que se baseia o relato, mas Molinari enumerou alguns documentos de onde inferiu vários aspectos da vida de Donohoe. “Através dos livros do Bangu é possível determinar a rua exata e o número onde ele morava”, disse. “Fora isso, temos rastros dele quando há alguma cerimônia na fábrica Bangu e ele é citado como um dos mestres de seção, participando dos almoços, das recepções que chefes de Estado tinham quando iam até o estabelecimento fabril.” O autor, porém, admite que romanceou um pouco a história. “Entrar na psicologia do personagem foi a fórmula que encontrei para que o texto ficasse atrativo aos leitores”, disse.

Sem documentos ou testemunhas que lhe deem respaldo, o pioneirismo de Thomas Donohoe não é levado a sério fora de Bangu. Para os historiadores do futebol no Brasil, a partida organizada por ele vem se juntar a outros relatos, mais ou menos nebulosos, de bate-bolas por todo o país antes de Charles Miller. É o caso de marinheiros que aportavam na costa brasileira e aproveitavam a folga para jogar uma pelada nas praias, ou de estudantes do interior de São Paulo que teriam aprendido o jogo num colégio de jesuí-tas ainda na década de 1880, conforme publicado no livro Visão do Jogo: Primórdios do Futebol no Brasil, de José Moraes dos Santos Neto.

“A brincadeira de chutar uma bola existe há mais de mil anos”, argumentou John Mills, biógrafo daquele que é oficialmente o pioneiro do futebol no Brasil. “Charles Miller foi o primeiro a trazer um livro de regras e organizar uma partida de onze contra onze”, defendeu. O sociólogo do esporte Ronaldo Helal, outro que desconhece a trajetória de Donohoe, concorda que foi Miller quem institucionalizou a prática do futebol no país. Mas ele considera que, mais importante que apontar a data inaugural ou o pioneiro, é pensar em como nos relacionamos com esses mitos fundadores. “A dramatização do fato é, na minha visão, mais importante que o fato em si”, argumentou.

A julgar pela paixão dos banguenses por seu time, vai ser difícil convencê-los a aceitar a versão oficial. No galpão de Clécio Régis, os detalhes que lembram seu time povoam todo o ambiente. Nas paredes, estão emoldurados os ingressos das partidas do Bangu pela segunda divisão do Campeonato Carioca, depois que o clube foi rebaixado no ano do seu centenário, em 2004 (voltou à primeirona em 2008). Até a estátua de Nossa Senhora Aparecida está protegida pelo escudo alvirrubro. “Time de futebol é maior que religião. Minha maior emoção é ver o Bangu entrar em campo. Porque está 0 x 0. Depois, não sei”, disse o cenógrafo, um homem inquieto e empolgado de 53 anos.

Enquanto aguarda o momento de ser exibida ao público, a estátua de seu Danau continua de dedo em riste, para lembrar o pioneirismo que os banguenses lhe atribuem. Seu local definitivo já foi escolhido: será na praça em frente ao estádio do Bangu, a ser rebatizada com o nome de Thomas Donohoe. A inauguração depende de dois detalhes menores: a reforma da praça e a da arena.


Repórter: Ronaldo Pelli
Fonte: Revista Piauí, publicada em dezembro de 2012.

     
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