Bangu Atlético Clube: sua história e suas glórias

1905

O presidente José Villas Boas
O presidente José Villas Boas.

Para o ano de 1905, o Bangu tinha modificações no seu comando maior. A diretoria trazia algumas novidades em relação ao ano de fundação. O presidente William French deixou o cargo nas mãos do português José Villas Boas, chefe da seção de gravuras da fábrica. James Hartley era o vice-presidente, John Stark tornou-se secretário e Clarence Hibbs ficou com a tesouraria do clube.

Este seria um ano fundamental para o incremento do futebol no Rio de Janeiro. Já existiam diversos clubes e surgia a necessidade da realização de um campeonato, assim como havia em São Paulo.

O futebol na então Capital Federal surgiu em 1902 com a fundação do Rio Football Club e do Fluminense Football Club, cresceu no ano seguinte com o surgimento do Football and Athletic Club, e estourou de vez no ano de 1904, com a fundação do Bangu, do Botafogo, do América, do Colégio Militar F.C. e do Internacional, além do Rio Cricket, antigo clube de Niterói, que passou a praticar o esporte. Em 1905, surgiram mais clubes, como o Riachuelo, o Haddock Lobo, o Mangueira e o Paysandu Cricket Club, existente desde 1872, e que começou a jogar futebol entre seus associados.

A primeira aparição do Bangu nos campos de futebol em 1905 ocorreu no dia 14 de maio, no jardim da Fábrica. O adversário era o Fluminense. As famílias banguenses prestigiaram o evento e às 15:30h, todos os sócios do clube aplaudiram a entrada da equipe alvirrubra, constituída por: Frederich Jacques, James Hartley e Justino Fortes; Segundo Maffeu, Thomas Hellowell e César Bochialini; Dante Delocco, John Stark, William Procter, Francisco de Barros e Francisco Carregal. Surpreendentemente, o Bangu venceu o Fluminense por 5 a 3. Foi neste jogo que estreou Francisco Carregal, o primeiro negro aceito para figurar em uma equipe de futebol no país, o que deu ao Bangu o mérito de ter quebrado o preconceito racial que existia até então.

Depois da realização deste jogo, no salão da Sociedade Musical Progresso de Bangu, o clube ofereceu ao Fluminense um grande banquete, no qual um dos sócios do Football and Athletic Club, que vinha mantendo com o Bangu as melhores relações possíveis, orando sobre o esporte e seu notável desenvolvimento, levantou a idéia da fundação de uma liga de futebol, assunto sobre o qual já se falara durante a partida.

Oscar Cox, do Fluminense, manifestou-se contra o projeto de José da Rocha Gomes, do Athletic, sendo de opinião que a liga só deveria ser fundada depois que todos os clubes da época possuíssem sede e campo próprios. Apesar deste voto contrário, a idéia teve franco apoio dos presentes, mesmo porque, dada a enorme aceitação do futebol no Rio, tornava-se necessária uma associação que patrocinasse os interesses deste esporte.

A iniciativa do Bangu e do Football and Athletic repercutiu bem e, no dia 21 de maio, uma semana depois do primeiro encontro, o presidente do Athletic, Tenente Santiago Rivaldo e seu vice, José da Rocha Gomes, convocaram uma assembléia na sede do Clube de Natação e Regatas, na qual apresentaram o projeto da entidade pioneira.


O time do Bangu de 1905
O time do Bangu em 14 de maio de 1905, antes da partida contra o Fluminense no campo da Fábrica: da esquerda para a direita, última fila: José Villas Boas (Presidente Interino), Frederich Jacques e João Ferrer (Presidente Honorário); fila do meio: César Bochialini, Francisco de Barros, John Stark, Dante Delocco e Justino Fortes; fila da frente: Segundo Maffeu, Thomas Hellowell, Francisco Carregal, William Procter e James Hartley.

A reunião definitiva para a fundação da Liga de Futebol só ocorreu no dia 8 de julho, quando representantes do América (Alberto Hagstroem e Henrique Mohrstedt), Bangu (José Villas Boas e John Stark), Botafogo (Joaquim de Souza Ribeiro e Antônio Pinto), Fluminense (Oscar Cox e Victor Etchegaray), Sport Club Petrópolis (Ademar de Faria e Edgar de Andrade Figueira) e, é claro do Football and Athletic (Bernardo de Carvalho e Álvaro Cerqueira) reuniram-se na sede do Fluminense, criando a Liga de Football do Rio de Janeiro e elegeram a primeira diretoria, encabeçada por José Villas Boas, presidente do Bangu.

Depois da eleição de Villas Boas para a presidência da recém criada Liga, foram votados os outros cargos, tendo Victor Etchegaray, do Fluminense, sido eleito vice-presidente; José da Rocha Gomes, do Athletic, sido escolhido secretário e Antônio Pinto, botafoguense, o tesoureiro da entidade.

Para o Bangu era um honra muito grande ter seu presidente como o primeiro representante da entidade mor do futebol no Rio de Janeiro e, mais do que isso, era uma chance de crescer dentro do cenário esportivo da cidade.

Depois da vitória do dia 14 de maio sobre o Fluminense por 5 a 3, o Bangu jogou o return match no campo das Laranjeiras, em 28 de maio, sendo derrotado: 3 a 0 a favor do tricolor.

Nesta partida, o Fluminense marcou o primeiro gol através de Norman Hime na etapa inicial. Logo após o gol tricolor, o Bangu teve uma chance de empatar a partida com John Stark, tendo o árbitro prejudicado o alvirrubro alegando que o atacante colocara a mão na bola antes de concluir o lance. No segundo tempo, valeu a maior experiência do Fluminense, que marcou dois gols, um com Duff e outro com Oscar Cox.

Em 11 de junho, também no campo do Fluminense, o Bangu enfrentou o Football and Athletic, sendo novamente derrotado, desta vez por 2 gols a 0.

O Athletic demonstrou ter mais calma e tranqüilidade para concluir os lances do que o Bangu. Conseguindo marcar os dois gols no primeiro tempo, através de Raul Maranhão e Muniz Botafogo. Na segunda etapa, o Bangu encurralou o adversário no seu campo, porém não conseguiu diminuir a vantagem conquistada pelo Athletic.

Como prêmio de consolação, o Bangu ganhou um jantar oferecido pela família Alvarenga para 60 talheres no Hotel Globo, logo após a partida. Este banquete correu na maior cordialidade, tendo sido o brinde de honra levantado por Bernardo de Carvalho ao Bangu. Respondido pelo secretário John Stark, retribuindo a gentileza.

No dia 25 de junho, no campo da Fábrica Bangu, o nosso valente clube empatou em 0 a 0 com o Botafogo Football Club. Era a primeira vez que estas equipes, que viriam a ser tão tradicionais no cenário esportivo carioca, se enfrentavam.

A sorte não acompanhava os alvirrubros. No dia 30 de julho era hora de mudar esta situação na partida contra o Internacional, no campo da fábrica. Porém, contrariando as expectativas da torcida, o Internacional venceu por 1 a 0 e ainda teve o prazer de degustar uma belíssima mesa de doces, oferecida pelo Bangu logo após a partida. Como curiosidade, durante todo o jogo ouviu-se a banda de música composta de operários da fábrica. Esta foi, portanto, a primeira vez que um jogo de futebol foi acompanhado por um conjunto de músicos em plena atividade.

A esperança de uma vitória ficou adiada para o dia 6 de agosto, quando o Bangu convidou o América Football Club para um jogo na Fábrica. Seria a primeira vez que o clube da Tijuca jogaria uma partida contra outra associação, apesar de ter sido fundado em 18 de setembro de 1904. O América, nesta época, não utilizava as tradicionais cores rubras no seu uniforme, jogavam de camisas negras e calção branco.

Os jogadores americanos estavam animados, e às 9 horas da manhã já estavam na Praça da República esperando o trem para Bangu. A chegada ao destino só ocorreu às 11:30. Logo ao desembarcarem, os nossos dignos adversários almoçaram em uma tendinha nas imediações da estação. Satisfeito o estômago, seguiram para a Fábrica, onde foram recebidos pelo presidente José Villas Boas, acompanhado de seus filhos.

Os jogadores do América não conseguiram esconder a satisfação de ver o campo de jogo, verdadeiro tapete verde, além de um vestiário equipado com chuveiros - uma grata novidade.

Sob intensa expectativa, as duas equipes entraram em campo. O América com seu uniforme já descrito: camisa preta, com monograma gravado ao lado esquerdo, gravata branca, calção branco e meias pretas. Pelo Bangu, cujo uniforme constava de camisas em listras verticais brancas e vermelhas, calção branco e meias pretas, formavam: Frederich Jacques, James Hartley e César Bochialini; Dante Delocco, Arlindo Barbosa e Andrew Procter; William Hellowell, John Farrington, John Stark, Segundo Maffeu e Francisco Carregal.

Os banguenses justificaram o prévio favoritismo, franco e absoluto. Venceram, como não poderia deixar de acontecer. Logo ao final do primeiro tempo o placar já indicava a ampla vantagem de 6 a 0. Na etapa final, os americanos colocaram o seu melhor jogador, Amílcar, para atuar no ataque e conseguiram o seu único gol no jogo. O Bangu satisfeito com o que fez no primeiro tempo, acomodou-se e venceu por 6 a 1 os valentes jogadores do América, que ressentiam-se da falta de ritmo de jogo.

Como prova do imenso laço de amizade que prevalecia nesta época no futebol carioca, o presidente José Villas Boas, logo após a partida, fez questão de entrar como sócio no clube americano. A adesão do importante industrial, um dos principais diretores da Fábrica de tecidos, representou inestimável reforço para o América, visto que era o presidente da Liga.

Em setembro, a Liga Metropolitana de Football publicava seus estatutos nos principais jornais da cidade, sendo composto de diversas regras a serem respeitadas pelos clubes filiados, como por exemplo, o de conservar os termos ingleses, como offside, foul, goal, penalty, etc. Na época eram apenas cinco filiados: Bangu, Football and Athletic, Botafogo, América e Fluminense. No final do ano, foram aceitas pela Liga as duas sociedades britânicas: o Rio Cricket e o Paysandu. Ambas equipes seriam selecionadas para participarem do Campeonato Carioca, que seria realizado no ano seguinte.

No mês de dezembro, José Villas Boas, presidente do Bangu e da Liga, deixaria os dois cargos, em vista das eleições. No Bangu, na primeira assembléia geral realizada na história do clube, em 20 de dezembro de 1905, cerca de setenta sócios apreciaram o relatório financeiro e elegeram os seus novos representantes. Ao final da assembléia, o inglês William French, retornava à presidência do Bangu para o ano de 1906.

Em 26 de dezembro, os delegados dos clubes filiados à Liga Metropolitana elegeram novos representantes para a entidade, e José Villas Boas deixou a presidência, passando o bastão para Francis Walter, presidente do Fluminense.


As equipes do Bangu e do Internacional juntas antes do início da partida
As equipes do Bangu e do Internacional juntas antes do início da partida do dia 30 de julho, no campo da Fábrica.