Bangu Atlético Clube: sua história e suas glórias
Escudo Bangu 3 x 0 Escudo Flamengo
BANGU   Flamengo
Competição Campeonato Carioca (Returno - 7ª Rodada)
Local Maracanã (RJ)
Data e hora 18/12/1966 - 18h00
Renda Cr$ 222.153.510
Público 143.978 presentes
Árbitro Airton Vieira de Moraes
Auxiliares José Teixeira de Carvalho e Gualter Portela Filho
Escudo Bangu Ubirajara, Fidélis, Mário Tito, Luís Alberto e Ari Clemente; Jaime e Ocimar; Paulo Borges, Ladeira, Cabralzinho e Aladim.
Técnico: Alfredo González.
Escudo Flamengo Valdomiro; Murilo, Jaime, Itamar e Paulo Henrique; Carlinhos e Nelsinho; Carlos Alberto, Almir, Silva e Oswaldo.
Técnico: Armando Renganeschi.
cartao vermelho Ubirajara, Luís Alberto, Ari Clemente e Ladeira (Bangu); Valdomiro, Itamar, Paulo Henrique, Almir e Silva (Flamengo)
Gols No 1º tempo: Ocimar(23) e Aladim(26). No 2º tempo: Paulo Borges(3)
. . . . . . . . . . . . . . .
Bangu é grande campeão
Fonte: Jornal dos Sports
Conflito acaba jôgo antes do fim
Foto: Jornal dos Sports
No meio da briga, Ubirajara agarra Almir, que chutou Ladeira, caído no chão
No meio da briga, Ubirajara agarra Almir, que chutou Ladeira, caído no chão

O Bangu, que já era considerado o melhor time do Rio, é também o seu campeão. Precisando apenas do empate, derrotou o Flamengo por 3 a 0, ontem à tarde, no Estádio Mário Filho, e num jôgo que terminou aos 25 minutos do segundo tempo, quando os dois times provocaram o maior conflito talvez já visto na história do estádio.

Ocimar e Aladim, no primeiro tempo, e Paulo Borges, no segundo, marcaram os gols bangüenses. E com o jôgo já decidido, explodiu a grande briga, que teve como principal figura o atacante Almir, que deu e apanhou, mas jamais correu.

É do Bangu o ataque mais positivo, a defesa menos vazada, o artilheiro e o título. Por isso, cada jogador receberá o prêmio de Cr$ 2 milhões, pela alegria que deu ao povo que dançou nas ruas do bairro até esta madrugada.


Bangu campeão enterra a lenda da camisa

O Bangu conquistou ontem, depois de uma longa e penosa espera de 33 anos, o título de campeão carioca de futebol de 1966, ao derrotar o Flamengo por 3 a 0, enterrando, com um jôgo que acabou 20 minutos antes do tempo, muitas tentativas frustadas e de que não importaria o seu melhor futebol em mais uma final, por não ter tradição a sua camisa, nem o seu time, nervos e coragem.

A vitória e a conquista do título se iniciaram logo no primeiro minuto da partida que, nesse curto tempo de disputa, já se apresentava sensacional, com dois gols perdidos pelo Flamengo, a contusão de Carlos Alberto, que passou a fazer número e a ter que sair de maca e, ainda, uma largada de bola de Valdomiro, em centro sem pretenção de Fidélis, mas que quase dava ao Bangu o seu primeiro gol.

Até o primeiro gol, marcado por Ocimar aos 23m, o futebol de Flamengo e Bangu era marcado pelo nervosismo dos 22 jogadores, por correria e agitação, não apresentando as duas equipes, menos ainda a do Bangu, o mínimo de tranqüilidade. O Gol, que teve a terrível colaboração de Valdomiro, também vítima do nervosismo, veio colocar o Bangu dono da situação, lhe sendo fácil, daí para a frente, alcançar a categoria, segurança e tranqüilidade do grande campeão.

Minuto completo

Dentro do ambiente de emoção de um estádio cheio e do grito de guerra de duas torcidas apaixonadas, pode-se dizer que o primeiro minuto de jôgo foi completo em tudo que se pode esperar de um jôgo, para definí-lo em sua tendência para o vencedor. Nesse minuto trágico para o Flamengo, dois gols foram por êle perdidos, Carlos Alberto foi colocado fora de ação para o resto do jôgo e Valdomiro se revelava contagiado pelo nervosismo e insegurança só admitidas, então, nos jogadores do Bangu, no time todo do Bangu. A maca, objeto que teve atuação objetiva dentro do jôgo, também nesse primeiro minuto, minuto completo em tudo, estêve em cena para conduzir Carlos Alberto para fora do campo e por mais de cinco vêzes voltou a ser solicitada, embora não utilizada em tôdas.

A bola subia mais do que corria pelo gramado, o Flamengo, já sem poder lançar Carlos Alberto, passou, a explorar o setor esquerdo, com Almir para alí se deslocando e encontrando em Fidélis um marcador impiedoso, viril e corajoso, mas, ainda assim, criando jogadas perigosas e a que deu, aos 17m, a desilusão total à torcida do Flamengo, de que a sorte não era rubro-negra, pois uma cabeçada de Silva, no centro medida de Almir, foi estourar contra a trave direita de Ubirajara. Sentiu o Flamengo o golpe, a fatalidade da bola contra a trave. Se reanimou, por sua vez o Bangu, e Jaime, Mário Tito, Luís Alberto e Fidélis então todos nervosos e furando, até, na hora de atrasar uma bola a Ubirajara, foram se tranqülizando, ganharam confiança e se nivelaram a Ari Clemente, Aladim, Cabralzinho e Ocimar, que vinham com boa atuação.

Mas o Flamengo, precisava da vitória para se sagrar bicampeão. Precisava dela e, em sua busca, tratou de ir para a frente. Valdomiro não havia ainda sido exigido e quando foi, num chute perfeitamente defensável, falhou ao ajudar a bola entrar em sua meta, em chute de Ocimar, da entrada da área. Era a definição do jôgo para o Bangu, era o Bangu que pintava campeão, que se impunha, que marchava para o título.

Vitória incontestável

Aos três minutos, Paulo Borges foi lançado em profundidade por Cabralzinho e com facilidade venceu a Itamar na velocidade, alcaçou a grande área e chutou para marcar o terceiro gol, levando a torcida a gritar "Bangu Campeão" e a cantar o tradicional "Está Chegando a Hora". Não havia mais alternativa, e o próprio time do Flamengo chegou a dar a impressão de conformismo à fatalidade.

O Bangu conquistou ontem o título de campeão carioca de futebol de 1966, o segundo em sua história, e acabou com a lenda de que a sua camisa não se impunha e outra de não ter o seu time coração ou nervos para jogar o seu melhor futebol numa decisão.


Melhor conjunto levou Bangu ao título de 66

O Bangu começou a campanha de 1966 como se predestinado a obter o título, pelo qual já vinha lutando há 33 anos. Desta vez iniciou o campeonato disposto a superar a sina que o perseguia nestes últimos anos, quando deixava escapar o título nos últimos compromissos.

A equipe - jogadores, técnico e diretores - irradiava otimismo, embora nunca deixasse de usar a humildade de "time pequeno" como sua principal arma. Um perfeito entendimento entre atletas e dirigentes e um time técnicamente bem preparado, quase sem falhas, fêz o Bangu finalmente campeão.


Escalação do time do Bangu para o jogo da final em 1966

Mérito da Vitória é de todos 11

Se um time campeão, no dia em que conquista o título, ganhando de forma clara e ineqüívoca, alguns jogadores merecessem mais elogios que outros, êstes seriam Fidélis, Mário Tito, Luís Alberto, Ari Clemente, Jaime, Cabral e Aladim, que foram excepcionais dentro da excelente equipe bangüense.

No Flamengo, que revelou surpreendente nervosismo a imaturidade para enfrentar as adversidades de um jôgo difícil - e que acabou complicando-se demais - salvaram-se apenas, Paulo Henrique, Silva e Osvaldo, que jogaram como costumam: os dois primeiros bem, o outro o que sabe.

Bangu

Ubirajara - uma partida absolutamente tranqüila. Apenas um lance perigoso, que poderia ser decisivo, quando Silva cabeceou à sua frente. Teve sorte de tocar na bola e mais sorte ainda que ela batesse na trave.

Fidélis - talvez a sua melhor atuação em todo o campeonato. Além das habituais virtudes técnicas, revelou-se um marcador duro, por vêzes violento. Não perdeu sequer uma disputa de bola e ainda encontrou tempo para atacar, investindo pela direita.

Mário Tito - se ainda havia dúvidas, firmou-se nesta temporada como um dos melhores zagueiros do Rio. Perfeito nas bolas altas, preciso no jôgo rasteiro, dominou completamente o meio de sua área.

Luís Alberto - outro jogador que se firma em definitivo. O jovem e afobado quarto-zagueiro transformou-se num defensor valente e eficiente, firme e tranqüilo, responsável e duro. Culminou o campeonato com magnífica atuação.

Ari Clemente - destacou-se em campo jogando duro e bem. Depois, como já era de se prever, destacou-se na hora da briga, usando seu tamanho e sua disposição. Sem ter a quem marcar, pois aos dois minutos Carlos Alberto já estava inutilizado, Ari pôde exibir recursos que até agora ainda não havia revelado.

Jaime - tocando a bola de primeira no meio de campo, correndo em tôdas às direções, dominando a maioria dos lances que intervinha, deu ao Bangu a consistência necessária para partir à frente em busca da vitória.

Ocimar - experiência e técnica, capacidade de liderança e qualidade de bom futebol. Se tem 37 anos de idade, anda muito conservado, pois corre como um menino na alegria de seus primeiros contatos com a bola.

Cabralzinho - o cérebro e o talento da equipe. Conhece como poucos so segrêdos da bola e da zona do gramado que explora com inteligência. É talvez a mais sólida base do time bangüense, de onde partem todos os seus grandes lances.

Ladeira - um atacante lutador, sem grande brilho, mas que ontem pode ter colocado um sério obstáculo para a sua carreira no Rio, ao provocar os conflitos que encerrariam o jôgo. Agrediu Paulo Henrique e depois correu de Almir, o que, absolutamente, não lhe ficou bem.

Aladim - outro jogador que firmou-se, agora no Bangu não pode nem admitir mais a sua ausência. Desempenha no time a missão de ajudar no meio de campo, sem deixar de fazer presente na frente, marcando gols em quase todos os jogos. Um jogador lutador e voluntarioso e inteligente.


Título foi prêmio aos dois homens da cúpula

Em meio a um ambiente tranqüilo onde o Presidente Eusébio de Andrade é o primeiro a irradiar serenidade ao resolver os problemas que lhe são apresentados, mais dois homens compõem a cúpula administrativa do Bangu, particularmente em seu Departamento de Futebol, responsabilizando-se diretamente pela excelente campanha que o clube realizou no Campeonato Carioca de 1966.

Castor de Andrade e Silva é o Vice-Presidente de Futebol, e mais do que isso, é o elemento que serviu de motivação para o Bangu em várias oportunidades, sempre que se fêz necessária a presença de um dirigente trabalhador, com bastante coragem para impor o nome de seu clube, e, principalmente, grande amigo dos jogadores para qualquer momento, dentro ou fora do Bangu.

Francisco Giorno completa o trio administrativo do futebol bangüense, ocupando o cargo de Diretor de Futebol desde abril de 1966. É mais um trabalhador que não gosta de propaganda, preferindo sempre agir no calado, facilitando ainda mais o entendimento direto entre a Diretoria e os jogadores, fator prepoderante para a tranqüilidade que sempre existiu no Bangu, negando chances a que surgissem "ondas".

Dêsde o comêço

Eusébio de Andrade é Presidente do Bangu a três anos, depois de viver mais de 25 anos dentro da vida política do clube, sempre presente por suas críticas que seu filho Castor chama de "cornetadas".

Mesmo afirmando que "nada entende de futebol", o Presidente do Bangu é responsável pelo presença de bons valores no time bangüense. Parada, Bianchini, Ladeira e Cabralzinho, são algumas das "cartadas" do "seu Zizinho", que faz questão de dizer que não atira em falso, "e acho que tenho estrêla favorável, pois sempre dei sorte nos jogadores que trouxe para o Bangu".

Durante os meses em que se disputa o Campeonato Carioca, quase que diariamente, o Presidente Eusébio de Andrade gasta tôdas as manhãs em conversa com os jogadores e a imprensa, procurando sempre comprovar o que êle define como "normalidade".

Eusébio de Andrade é um Presidente tranqüilo, que divide entre sua família e o Bangu as alegrias que recebeu em 1966. Católico ao extremo, "seu Zizinho" agradece a Deus as felicidades nas vitórias, esperando continuar merecendo-as novamente em 1967.

Era corneteiro

É o próprio Castor quem afirma que "eu já fui um exímio malhador antes, e por isso não ligo aos atuais "corneteiros". Com 40 anos de idade, dos quais 27 dedicados ao Bangu, Castor é um homem alegre, tranqüilo em sua família e esbanjando satisfação com o time.

Se quiserem aborrecer Castor de Andrade é só perguntar o quanto êle e seu pai já gastaram no Bangu. Gastaram muito, todos sabemos, mas êle faz questão de afirmar que continuará gastando sempre que for preciso, "pedindo apenas a felicidade de terem os bangüenses uma equipe forte, com disposição, e, acima de tudo, honrando ainda mais esta camisa que já está calando a bôca de muita gente."

Sempre trabalhador

Carioca de 1923. Francisco Giorno entrou como sócio no Bangu aos 16 anos e já foi jogador inclusive do primeiro time do clube, justamente em 1933, época em que o Bangu era um dos times que dominavam o futebol carioca.

Em 1965 foi indicado para tesoureiro do clube, e chefiou a excursão que o clube realizou no ano passado do norte do País. Diretor de Futebol a partir de abril de 1966, sem ser superticioso, Francisco Giorno goza da amizade geral dos jogadores do Bangu, que sempre encontram no "Chiquinho" um amigo para solucionar todos os problemas que por acaso existiram em 1966.


Jôgo acabou porque o Fla teve cinco expulsos

O Sr. Antônio do Passo, Presidente da Federação Carioca de Futebol, estêve no vestiário do juiz Airton Vieira de Morais, de quem ouviu o relatório verbal dos motivos que o levaram a encerrar a partida, e que foram as expulsões de 9 jogadores - 5 do Flamengo e 4 do Bangu - razão por que não poderia continuá-la, pois a regra impede que um jôgo prossiga se uma das equipes ficar com menos de 7 jogadores.

Disse o Sr. Antônio do Passo que a matéria é pacífica e está a coberto de qualquer medida judiciária:

- Ao receber o informe oficial do juiz, decidirei, com base no parecer do Departamento Técnico da Federação, que a partida não poderia prosseguir, dando-a, portanto, por encerrada, com a vitória do Bangu pela contagem de 3 a 0 - explicou.

Dúvida

Desde o momento em que o juiz Aírton Vieira de Morais deixou o campo, não mais voltando, houve dúvidas generalizadas sôbre o que aconteceria, do ponto de vista legal. Nem mesmo a comunicação feita pelos alto-falantes do Estádio Mário Filho serviram para esclarecer devidamente o assunto, já que se limitara a informar que o árbitro declarara o jôgo encerrado.

Nos vestiários, a situação, confusa em virtude dos conflitos, não se aclarou quanto ao destino dos 20 minutos restantes. O Sr. Flávio Soares de Moura, Diretor do Flamengo, dizia que o seu clube estava à disposição para disputar o tempo que faltava, enquanto o Sr. Castor de Andrade, Vice-Presidente do Bangu, gritava que o jôgo fôsse recomeçado, porque o escore iria subir mais ainda.

Fim de jôgo

Cêrca de meia hora depois da equipe do Flamengo haver chegado ao vestiário é que veio a notícia: O Sr. Aírton Vieira de Morais expulsara de campo os jogadores Almir, Silva, Itamar, Valdomiro e Paulo Henrique, do Flamengo; e Ladeira, Ubirajara, Ari Clemente e Luís Alberto, do Bangu. Por isso, considerara o jôgo encerrado.

No hall de saída dos vestiários, o Sr. Antônio do Passo, acompanhado do Vice-Presidente da FCF, Sr. Ícaro França, reuniu os jornalistas e lhes comunicou que, de fato, aquelas expulsões estavam registradas pelo juiz.

- A lei recomenda que, se um time ficar reduzido a menos de 7 jogadores, a partida será acabada pelo juiz no ato de expulsão ou impedimento do 5º homem. Assim sendo, o Sr. Aírton Vieira de Morais relatará o fato junto com a súmula, para ser apreciado, como de hábito, pelo Departamento Técnico. Ao chegar o caso às minhas mãos, despacharei na forma da rotina, isto é, decidindo que o jôgo terminou quando o Bangu, que é o campeão de 1966, vencia por 3 a 0 - esclareceu o Presidente da Federação.

Afirmou também o Sr. Antônio do Passo ser inteiramente descabida a hipótese de anulação do jôgo, que somente ocorreria de houvesse "êrro de direito", que não era o caso.

Sugestão

Ao sair do túnel, o Sr. Antônio do Passo encontrou-se com o juiz José Gomes Sobrinho, que abordou com êle um aspecto do encerramento da partida por falta do número mínimo de jogadores disputantes.

- O Aírton - comentou - naquela confusão tôda, felizmente, para êle teve a inspiração de ver os jogadores que participaram da briga sendo 4 do Bangu e 5 do Flamengo. Mas, presidente, poderia ter acontecido o contrário, isto é, terem sido expulsos 5 jogadores do Bangu e 4 do Flamengo. Neste caso, quem teria tido número insuficiente de jogadores para disputar seria o Bangu.

E acrescentou o Sr. José Gomes Sobrinho:

- Acho, presidente, que êsse assunto não está bem esclarecido e precisa ser examinado, porque, usando o exemplo de hoje, o Bangu, que não podia jogar pôr falta de jogadores, de acôrdo com a lei, estava ganhando a partida.

. . . . . . . . . . . . . . .
Finalmente campeão o Bangu
Fonte: Jornal O Globo
Com Cinco Expulsos, o Flamengo Não Pôde Prosseguir e Perdeu de 3 x 0
Foto: Jornal O Globo
Na foto vê-se a bola vencendo Valdomiro, com Paulo Borges, que foi o artilheiro-mor do campeonato, correndo para o
Na foto vê-se a bola vencendo Valdomiro, com Paulo Borges, que foi o artilheiro-mor do campeonato, correndo para o "goal".

O Bangu venceu ontem o Flamengo por 3x0 na batalha decisiva no Maracanã, sagrando-se campeão carioca de 1966, repetindo afinal, depois de muitos anos de espera, o título de 1933, que era até então o único da sua história. No primeiro tempo os alvi-rubros marcaram 2x0 com tentos de Ocimar e Aladim, e na segunda fase, logo aos três minutos do reinicio, Paulo Borges, inteiramente livre, marcou o 3º tento, liquidando de vez as últimas esperanças do Flamengo.


Castor afirmou após a vitória: "O Flamengo não honrou suas tradições"

A vibração do Bangu começou no gramado, logo depois que foi anaunciado o encerramento da partida. Entretanto, a atitude do Flamengo tumultuando o jôgo ao seu final tirou todo o entusiasmo das comemorações finais no Maracanã. Mas em tudo o que aconteceu havia uma coincidência. Nada menos que três bolos estavam no vestiário alvi-rubro e num dêles aparecia Almir enforcado e a seguinte legenda: "Catimbeiro, camisa não ganha jôgo, mas sim coração". E o próprio Jaime, na volta olímpica, mostrou a camisa do Bangu para a torcida do Flamengo, e antes de descer as escadas do túnel confessou:

- Em nenhum momento tive mêdo de perder o título. Se êles tinham camisa, nós tínhamos o futebol e o resultado foi mais um 3x0. Infelizmente, os do Flamengo não souberam receber a derrota com dignidade e, obedecendo a Almir, tumultuaram o jôgo para que não sofressem mais tentos.

Não Honraram as Tradições

Para a volta olímpica, Cabralzinho procurou Castor de Andrade, pois na sua opinião o dirigente não poderia faltar. Castor não apareceu, e só mais tarde foi carregado nos ombros da torcida, acenando uma bandeira de seu clube para os torcedores. Vibrando, mas sereno, Castor afirmou:

- Os jogadores do Flamengo não souberam honrar as tradições rubro-negras. Perdi títulos no Maracanã e em todos minha equipe deixou o Maracanã de cabeça erguida. No fim de tudo, um moleque como o Almir tumultua o jôgo com o único propósito de tirar o brilho de nossa vitória, pois em matéria de futebol não havia como querer chegar lá.

Castor frisou que houve justiça, e argumentou:

- Depois de 33 anos, chegamos ao título, e desde que entrei no Bangu estivemos sempre perto. Felizmente, Deus nos ajudou desta feita, e mostramos a melhor fase de nosso futebol em todos os tempos, com o título para coroar nosso trabalho. Infelizmente, o Flamengo não soube acatar a superioridade bangüense.

Venceu o Melhor

Para o presidente Eusébio de Andrade, venceu o melhor do certame carioca:

- Depois de chegarmos perto nos anos anteriores, conseguimos o título e de uma maneira espetacular, pois demonstramos superioridade sôbre todos os adversários. Entretanto, só o Flamengo não aceitou o nosso futebol como o melhor e deu o espetáculo mais tristea que já assisti. Não culparei ninguém, pois sou de opinião que todos sabem qual o causador de tudo.

A Alegria de González

Gonzáles estava feliz e frisou:

- Durante o campeonato todos afirmaram que o Bangu ia tremer na final e que as goleadas iniciais eram questão de pura sorte. Mostramos que se enganaram os que pensavam assim e estou contente pelo sucesso hoje. Lamento apenas os acontecimentos no campo, pois tínhamos condições para ampliar nossa vantagem.

As Explicações

Enquanto as comemorações tomavam conta do vestiário alvi-rubro, Ladeira continuava deitado. Sôbre os incidentes falou:

- Fui devolver uma bola ao Fidélis e o Paulo Henrique veio com ofensas. Retruquei e o zagueiro disse que na primeira ia me apanhar. Realmente, entrou pesado e revidei com um tapa. Depois tive que correr mesmo, pois estava cercado e apanhando de todos os lados. Infelizmente, corri em direção à área do Flamengo, pegando o Itamar pela frente que me meteu os pés no peito. Caí e o Almir acabou por me chutar. Depois, não vi mais nada.

Ubirajara explicava:

- Na primeira vez tentei contornar a situação, segurando o Almir e tirando-o do bôlo. Na outra vez, êle me ofendeu e respondi que fora do campo estava pronto a esperá-lo. Almir agrediu-me e fui obrigado a reagir.

O capitão do Bangu afirmou que os seus companheiros evitaram participar do tumulto, pois o Maracanã não é lugar para lutas de boxe e argumentou que antes da partida havia determinação para que não reagissem às provocações e até mesmo às agressões, pois o que mais interessava era o título. E finalizou:

- Lamento apenas as molecagens do Almir, que mais uma vez provou que é um irresponsável.

A Felicidade de Aladim

Para Aladim o título terminou com a fantasia de que o Bangu não tinha tradição e que sua camisa não significava nada. E concluiu:

- Mostramos muito mais que isso. Mostramos futebol e educação, coisas que nunca foram registradas do lado rubro-negro. Venceu o Bangu, e o Flamengo não soube perder, querendo com isso diminuir o nosso título. Entretanto, terão que amargar por muito tempo essa disilusão.

A Certeza do Veterano

Antes da partida, Ocimar acreditava no título. Entretanto, os primeiros momentos de jôgo o deixaram preocupado, pois relembrava as últimas decisões. Então, Silva cabeceia e Ubirajara desvia para a trave, com o Bangu contra-atacando de maneira perigosa:

- Aí senti a vitória, pois em nenhum momento antes tínhamos tido uma reação como aquela. Senti que havia personalidade e quando acertei aquele tiro comecei a sonhar com o título, que acabou chegando apesar de tôdas as atitudes vergonhosas dos rubro-negros.

Mario Tito Critica

Mário Tito estava feliz com o título perseguido há tanto tempo. Entretanto, a reação do Flamengo o deixou decepcionado:

- Quando perdemos, deixamos o campo de cabeça erguida, reconhecendo a superioridade do adversário. Infelizmente, o Flamengo não soube imitar nossa atitude e preferiu tumultuar a partida para esconder o pouco futebol que tem.

Camisa Para a Espôsa

Mais que o trabalho que teve com Silva, Luís Alberto defendeu com ardor sua camisa, pois os torcedores a queriam de qualquer maneira:

- Prometi à minha espôsa e irei entregá-la o mais breve possível, pois será para ela uma grande alegria. Infelizmente, não posso atender aos torcedores, pois o apêlo de minha espôsa é bem maior. Será a prova de uma vitória espetacular e diante de adversário que não soube respeitar uma grande paltéia. O Flamengo decepcionou em tudo, pois quando sentiu que no futebol não dava mais, resolveu tumultuar de qualquer maneira e nada mais fácil para isso quando se tem Almir.

Defesa de Ari Clemente

No vestiário, Ari Clemente explicava o lance com Carlos Alberto:

- Entrei duro na bola como sempre faço e não tenho culpa da pouca resistência do rubro-negro. Infelizmente, o Flamengo está levando isso como a causa da perda do campeonato, sem se recordar Alarcon e um tricampeonato sôbre o América. Podem estar certos os rubro-negros de com dez ou onze não ganhariam o Bangu.

O Artilheiro Paulo Borges

Sorrindo mais do que nunca, Paulo Borges foi carregado em triunfo por companheiros e torcedores. Cansado, mas feliz, afirmou:

- Os "homens" queriam matar-nos. Tínhamos recomendações para não reagir às provocações, em virtude das declarações do Almir gravadas e filmadas de que ia tumultuar o jôgo. Conseguimos cumprir a determinação até a hora em que se revelou a loucura do Almir. Foi sem dúvida alguma a maneira de fugir a uma goleada.

O Entusiasmo de Fidélis

Fidélis tinha apenas um pensamento:

- Não podíamos perder de maneira nenhuma e não seriam as declarações maldosas de Almir que iam derrotar o Bangu. O Flamengo tinha era que jogar, em lugar de brigar. Pelo entusiasmo de sua torcida, a briga pareceu melhor do que o futebol. Acho que tinham razão, pois não esperavam pelos 3x0.

O Sonho de Cabral

Cabral afirmou que tinha terminado um sonho bom:

- Desde o comêço do campeonato vinha sonhando com essa vitória. De jôgo para jôgo aumentava mais um capítulo e hoje desperto feliz, pois foi um sonho dos mais lindos. Só não esperava era a reação dos jogadores do Flamengo, tumultuando completamente o jôgo para tentar esconder a nossa superioridade. Foi uma tristeza, pior do que ser vice-campeão invicto, como eles estavam ameaçados.

. . . . . . . . . . . . . . .
video Áudio do jogo
video Video do jogo
foto Fotos do jogo
Foto: Agência O Globo
Foto do jogo
Perigo de gol na área do Bangu, com Almir lutando contra Mário Tito, enquanto Luís Alberto impede Silva (9) de ficar com a bola. O goleiro Ubirajara olha, preocupado.
Foto: Agência O Globo
Foto do jogo
Disputa de bola no alto: Bangu 3 x 0 Flamengo, em 18 de dezembro de 1966, decisão do Campeonato Carioca.
Foto: Agência O Globo
Foto do jogo
Almir, do Flamengo, transtornado na briga generalizada ao final da derrota para o Bangu na decisão do Carioca de 1966.
Foto: Agência O Globo
Foto do jogo
O jogador Ladeira é retirado do campo de maca, para o vestiário do Bangu, após ser atingido em briga contra Almir e Itamar, do Flamengo.
Foto: Agência O Globo
Foto do jogo
Após o Bangu fazer 3 a 0 no Flamengo no Maracanã, jogadores e integrantes da comissão técnica e da diretoria do alvirrubro da Zona Oeste comemoram no gramado: campeão carioca de 1966.
Foto: Agência O Globo
Foto do jogo
Festa dos torcedores do Bangu, campeão carioca de 1966.
. . . . . . . . . . . . . . .
⇒ Leia a crônica de Carlos Molinari sobre este jogo.